Monólogo no plural – Diário de campanha Mundo das Trevas (Ato II)

Ato II
(By Rafael Alves)

Incrível como a possibilidade de boémia faz meu coração acelerar de euforia. Ainda sim pude pagar minha penitência mensal fazendo uma boa doação para uma ONG local que tenho ajudado a alguns anos. Isso também me faz sentir melhor, arrancando momentaneamente a parte fútil e rasa do meu intelecto. É como um equilíbrio de forças que preciso manter dentro de mim.
Obviamente por ser o primeiro dia de acampamento a boémia prevaleceu e eu nem mesmo conferir o UBER que foi me buscar. Entrei e sai do carro como se estivesse passando por um portal no tempo/espaço. Poucas horas depois, percebi que o motorista estava na nossa festa. “Penetra cretino”, seu nome não estava na lista. Na verdade, ele nem mesmo tinha a mesma aparência da foto no aplicativo e aquilo me intrigou bastante. Chamei dois seguranças e fomos procura-lo, mas é claro, ele desaparecera.
A fim de nutrir meu vício fui curtir a festa, afinal meus amigos tinham chegado. Jonny como sempre ficou reservado e custou a sair do quarto. Quando saiu veio com aquele mesmo papo estranho de sonhos, vultos e coisas sobrenaturais. Por incrível que pareça meus amigos estavam mais bêbados que eu e não deram a mínima para o que ele disse. Ricardo acabara de sair de um divórcio e ainda estava tentando encontrar sua ex mulher no fundo de uma garrafa de tequila. Walison o acompanhava, parecendo que não queria fazer aquilo. Lucian se enturmava mas parecia manter o controle sobre o álcool.
Quando tudo parecia estar sob controle, um disparo de arma de fogo ecoou pelo camping. Poucos escutaram devido a música alta, mas como estávamos perto, fomos em direção.
Quando chegamos, encontramos Jonny caído ao chão, diante da porta de sua cabana. Ele estava sem ferimentos mas jurava que tinha sido baleado. Entramos na cabana e não vimos ninguém e quando percebemos o local já não era o mesmo. Engrenagens cobriam teto e paredes de uma forma bizarra e surreal.
Estaríamos em um sonho?

 

Jason A.

 

Monólogo no plural – Diário de campanha Mundo das Trevas

Ato I
(By Rafael Alves)
Eu ainda tento compensar certos vazios em minha existência com noitadas regradas a mulheres e álcool. Um fato curioso já que no dia seguinte essas lacunas ainda estão lá, sem preenchimento completo. Outrora em tempos de faculdade, trocar de curso era minha rota de fuga mais rápida para esse mundo de aceitação do que é novo. Hoje pouco me resta de refúgio abstrato se não a boêmia, qual mergulho sem medo de afogar. Mas nos últimos dias o convite para um acampamento de ex-alunos despertou muitos interesses em mim e talvez seja um alento de maturidade. Ver a evolução de amigos pode ser a guinada que busco em direção ao meu próprio crescimento. De tanta ansiedade pelo evento tive sonhos com o último acampamento que fizemos. Isso seria normal se não fosse por meus amigos mais próximos terem o mesmo sonho. O mais reservado de nós, chamado Jonny, não ficou nada confortável com aquilo e parece buscar respostas. Na falta de argumentos ou ansiedade pelo encontro, muitos de nós também não deram a mínima para esse detalhe sórdido. Só estamos pensando no final de semana e nas loucuras que faremos. Se Jonny se acalmar, também poderá aproveitar bastante, pois as paredes do laboratório estão sufocando sua razão e seu humor. Um pouco de ar puro vai fazer bem para ele.

Jason A.

 

 

A Viagem – Parte III

Horas antes.

Fernando abriu os olhos. Percebeu que estava de cabeça para baixo e preso ao cinto de segurança. Sua mente começou a reorganizar as ideias e ele percebeu o que estava havendo.

Tinham sofrido um acidente. O carro capotou ribanceira a baixo até parar em uma árvore de tronco grosso que havia no caminho. Tentou mover a cabeça em busca dos amigos, mas uma dor aguda em seu pescoço não permitiu uma sondagem perfeita do local. Conseguia ver Bruno, que estava ao seu lado. O rapaz sangrava pela boca e nariz. Estava desmaiado.

Quando Fernando tentou chamar pelos outros dois que estavam no banco de trás, sentiu o gosto de sangue em sua boca. As palavras saíram como um sussurro. Ele percebeu que estava sozinho. Sozinho e preso nas ferragens, sangrando. A garoa que caía antes do acidente começou a transformar-se em chuva forte, enquanto a visão de Fernando ficava turva e ele desmaiava. Sabia que tanto ele quanto seus amigos não tinham muito tempo de vida, a não ser que um milagre acontecesse.  Continue reading »

A Viagem – Parte II

Santos 3 x 1 Corinthians, não era o futebol na tela do Globo, e sim mais uma das partidas que Rafael e seu irmão Rodrigo disputavam no vídeo game. Jogar era o hobby dos garotos naquelas noites que não se tem mais nada pra fazer. Era noite de namorar, mas Rodrigo se via impedido de sair de casa, pois tinha moto e naquela noite a chuva caía agressivamente. Ele detestava chuva e, para piorar, agora estava tomando uma goleada do irmão, e isso o deixava mais nervoso ainda.

Estavam no segundo tempo da partida, e ambos sabiam que quem perdesse teria que buscar cerveja na geladeira, como forma de castigo. Rafael caçoava do irmão, era muito difícil vencê-lo, principalmente quando jogava com o Corinthians, por isso aproveitava aquele momento de glória. Se não podia estar viajando com seus amigos, pelo menos estava vencendo seu grande rival. Continue reading »

A Viagem – Parte I

Obs.: Antes de começar, gostaria de deixar claro que a autoria deste conto é de Rafael Alves (http://www.facebook.com/rafael.alves001?fref=ts) e que estou publicando em nome dele. Aproveitem a leitura!

Era sua primeira viagem apenas com os amigos, viajavam para uma praia, no Rio de Janeiro. Era noite de sexta feira, estrada vazia, caía uma chuva fina e com muita neblina.

Fernando estava empolgado, gostava de estar com aquelas pessoas, pois Willian, Thiago, Bruno e Rafael eram amigos que conhecera em seu primeiro emprego e que até hoje mantinham uma fiel e sólida amizade. Continue reading »

Olhar e Vigiar – parte 2 de 2

Olhar e Vigiar (continuação)

Para a primeira parte do conto clique aqui: parte 1

Houve um garoto que perseguia meu filho, que o humilhava, o machucava. Meu Lucas era apenas uma criança, ele não estava preparado para aquilo, ele não podia se defender sozinho, coube a mim fazer algo que fosse necessário, então eu usei as habilidades que adquiri depois da morte sobre o outro garoto, e as utilizei com certa freqüência e por um período relativamente longo. A mente do garoto não resistiu, ela se quebrou, ninguém acreditava quando ele contava o que estava acontecendo e, por fim, ele enlouqueceu. Já faz bastante tempo isso, mas eu ainda o visito no hospital psiquiátrico, apenas para ter certeza de que ele não voltará a maltratar meu pequeno Lucas. O inconveniente de ir a um manicômio ou um hospital é que há outros como você lá, na verdade há muitos outros, e se encontrar e conversar com outros mortos, na maioria das vezes, não é nada agradável. Continue reading »

Diário de Samuel Vohuman, 20/2/2002

Diário de Samuel Vohuman

20 de Fevereiro de 2002:

 “Nomes pouco dizem, a não ser aquilo que eu quero mostrar. O que eu sou? Eu sou o Oitavo Filho. Quem eu sou? Vocês podem me chamar de muitos nomes. Pois de Azazel roubei o nome, e na forma de um bode o usei para ouvir os pecados do homem. Pois antes de Hades assim se chamar, eu mesmo Hades era, e manipulava deuses e deusas de acordo com minha vontade. Também os romanos e os cristãos sussurravam ‘Rex Mundi’, o senhor deste mundo, pois sabiam que minha vontade não devia ser contestada, e que meu real nome deveria ser temido. Pela Idade das Trevas, Næbyrus, Senhor do Profano, fui chamado, e sussurrava nos ouvidos de reis e lordes. Também Mamon foi minha alcunha, e me chamavam de Mestre da Usura, pois pela ganância os homens a mim encontravam, e a mim se entregavam. Nu, eu comparecia aos Sabás com o nome de Leonardo, e, a minhas feiticeiras, milhares temiam. Para muitos, eu sou Nebiros, mas nesta terra, me chamam Íblis Al-Qadim, e é por este nome que mais me temerão”. Continue reading »